Todos os sábados, vou ao cemitério visitar a vovó. Foi a forma que encontrei de cumprir o pedido que ela sempre me fazia: “não me abandone”.
Naquele dia, durante o longo percurso pela Univerdecidade, uma figura chamou minha atenção. Pensei em parar o carro e oferecer uma carona, mas, com medo de assustá-lo, segui sozinha.
Fiquei cerca de vinte minutos sentada, conversando com a vovó como de costume, certa de que ela me ouvia e me abençoava, como sempre fez.
Ao sair do cemitério, encontrei novamente aquele senhor. Achei que Deus estava sendo generoso demais comigo e me aproximei.
Ariovaldo tinha 74 anos e também visitava o cemitério uma vez por semana. Morava na Vila Militar, já havia sofrido um derrame e não considerava longo o caminho até ali.
— Eu morro de preguiça de andar — confessei.
Ele riu alto. Pedi para fotografá-lo. Aceitou, desconfiado.
— É só encantamento — expliquei.
— Você estava chorando? — perguntou.
Disse que sim e contei o motivo. Ele sorriu.
— Quem o senhor veio visitar?
Batendo a mão no peito e apontando para o coração, sussurrou, com a dificuldade deixada pelo problema de saúde que havia comprometido sua fala e o braço esquerdo:
— Um amigo sincero.
Antônio, o amigo de Ariovaldo, havia morrido oito anos antes; vovó, quatro. Na conversa daquele dia com dona Juvercina, pedi uma luz para os caminhos mais escuros.
Talvez aquela fosse a resposta: não há dificuldade quando escolhemos o caminho do amor, mesmo que ninguém compreenda, mesmo que faltem reciprocidade e explicação. O amor é o único caminho.
