Quando a psiquiatra me disse: “Vou te dar um remédio para começar a ter clareza sobre algumas coisas”, achei que daria de cara com o monstro que me fizeram acreditar que eu era.

Que encontraria erros onde eu jurava ter acertado. Que quem foi embora só partiu porque eu mesma abri a porta.

Mas não.

O que eu vi foi o oposto.

Foi uma vida inteira andando em círculos para ver alguém feliz. Foi o desprezo e a ausência de quem eu mais amava. Foi a crueldade dos outros me obrigando a ser forte o tempo todo.

Foram sonhos abandonados.

Fui me tornando o que esperavam de mim e esquecendo quem eu era — ou quem eu poderia ter sido.

Enxergar isso não muda tudo de uma vez. Mas começa a me tirar, pouco a pouco, desse lugar. Dessa prisão emocional onde me colocaram ainda criança e de onde eu nunca havia saído.

Nem vilã, nem mocinha. Nem anjo, nem bruxa.

Eu vi uma mulher exausta. Carente. Ferida.

E lúcida o suficiente para entender: não adianta enxergar e continuar no mesmo lugar.

Como a psiquiatra me disse, eu precisaria agir.

Porque de nada adianta enxergar se você continua respirando aquilo que a adoece.

É como dar remédio a uma pessoa asmática e mantê-la presa em um quarto cheio de poeira e mofo.