
A maior Copa do Mundo em dimensão terminou ontem. Disputado pela primeira vez em três países — Canadá, Estados Unidos e México —, o Mundial reuniu 48 seleções e terminou com a vitória da Espanha sobre a Argentina por 1 a 0, na prorrogação. Ferran Torres marcou o gol que garantiu à La Roja o segundo título de sua história.
Mais uma vez, o sonho brasileiro do hexacampeonato foi adiado. Eliminado pela Noruega por 2 a 1 nas oitavas de final, o Brasil assistiu de fora às seleções que pareciam jogar como um dia ensinamos ao mundo: com coragem, personalidade e um sentido coletivo capaz de ultrapassar o talento individual.
A Copa nos entregou histórias de superação, coragem e humildade. Aos 40 anos, o goleiro Vozinha viveu com Cabo Verde a primeira participação do país em um Mundial. Suas defesas ajudaram a seleção estreante a atravessar invicta a fase de grupos e alcançar, também pela primeira vez, o mata-mata. Para uma nação de pouco mais de meio milhão de habitantes, estar ali já era uma vitória; permanecer era fazer história.
Também vimos o técnico mais velho a comandar uma seleção em Copas do Mundo. Aos 78 anos, Dick Advocaat esteve à frente de Curaçao em sua estreia no torneio. Diante da Alemanha, a pequena ilha caribenha perdeu por 7 a 1, mas marcou o primeiro gol de sua história em Mundiais. O placar, tão familiar e doloroso para nós brasileiros, teve ali outro significado: para aqueles jogadores, estar em campo representava uma conquista que até pouco tempo parecia impossível.
A Argentina voltou a mostrar que uma seleção não se sustenta apenas sobre o talento de seus craques. Liderada por Lionel Messi, chegou novamente à final combinando capacidade de reação, resistência física e trabalho coletivo. Perdeu o título, mas reforçou uma identidade que seus jogadores parecem compreender antes mesmo de entrar em campo: vestir aquela camisa significa assumir uma história, uma responsabilidade e uma maneira de competir.
Marrocos, por sua vez, mostrou que a campanha de 2022 deixou de ser tratada como surpresa. Ao chegar pela segunda Copa consecutiva às quartas de final, tornou-se a primeira seleção africana a alcançar essa fase mais de uma vez. O que antes parecia uma exceção começa a ganhar a forma de um projeto.
Na disputa pelo terceiro lugar, França e Inglaterra entregaram um dos jogos mais intensos do torneio. Em uma partida de dez gols, a Inglaterra venceu por 6 a 4. Talvez aquele jogo tenha mostrado precisamente o que tanto sentimos falta na Seleção Brasileira: disposição para correr riscos até o último minuto.
Enquanto isso, os brasileiros continuaram recorrendo à memória.
Tivemos o maior jogador da história do futebol. E os Estados Unidos, durante o primeiro show de intervalo realizado em uma final de Copa do Mundo, lembraram ao mundo o legado de Pelé.
No telão do estádio, reapareceu o registro de sua despedida, em 1977, no antigo Giants Stadium. Na ocasião, o Rei pediu que os torcedores repetissem uma palavra três vezes: Love. Love. Love.
Quase meio século depois, a imagem voltou ao mesmo lugar geográfico em que Pelé encerrou a carreira, como se o passado brasileiro ainda precisasse reaparecer para lembrar ao futebol contemporâneo quem fomos.
O Canarinho, um dia considerado o bicho-papão do mundo, já não assusta como antes.
Temos jogadores valiosos, distribuídos entre alguns dos maiores clubes do planeta, mas ainda parece faltar a compreensão do que significa vestir a camisa da Seleção. Em seus times, muitos são protagonistas. Quando se encontram de amarelo, porém, raramente formam uma equipe capaz de reconhecer a própria voz.
Não é apenas uma crise de talento. Também não é justo reduzir a derrota à ausência de raça, como se vontade bastasse para vencer uma competição desse tamanho. O problema parece mais profundo: perdemos uma identidade coletiva.
A camisa amarela já representou alegria, criatividade, improvisação e coragem. Representou a capacidade de encontrar uma saída quando o jogo parecia fechado. Representou um país que, apesar de suas contradições, se reconhecia durante noventa minutos em uma forma singular de jogar.
Hoje, a imagem parece ter ocupado o lugar da ideia.
Joias, comemorações preparadas para as redes sociais, contratos milionários e a exposição da vida privada ganham, muitas vezes, mais atenção do que o desempenho em campo. A questão não está nos relacionamentos, na paternidade ou na maneira como cada jogador escolhe viver. Está no fato de que o espetáculo construído ao redor deles se tornou maior do que a narrativa coletiva da própria Seleção.
Quando o marketing individual fala mais alto que o pertencimento, a camisa se transforma apenas em uniforme.
O Brasil parece ainda paralisado naquele 7 a 1 sofrido para a Alemanha. Desde então, cada eliminação renova a sensação de que assistimos silenciosamente a um dos maiores patrimônios simbólicos do país se transformar em memória.
Logo nós, que tivemos Pelé, Garrincha, Rivelino, Zico, Romário, Ronaldo e Ronaldinho. Jogadores que não apenas venciam: inventavam. Driblavam porque enxergavam uma possibilidade onde os outros viam um adversário. Criavam jogadas que ainda não tinham nome.
Entregamos ao mundo o melhor do nosso futebol. Outros países observaram, estudaram, organizaram e aperfeiçoaram aquilo que um dia pareceu nascer espontaneamente nos nossos campos. Enquanto eles construíram projetos, nós continuamos confiando na nostalgia.
A Seleção que tão bem representava o povo brasileiro pela alegria de ter uma bola nos pés, pela garra de não desistir até o último segundo e pela vontade de jogar um futebol bonito independente do resultado, não existe mais. Colocamos nas mãos de um italiano a responsabilidade de devolver as nossas vitórias. Mas quem devolverá o nosso futebol arte, a nossa criatividade e o nosso talento?