Saí de Pirapetinga, em Minas Gerais, às 2h. Cheguei ao Rio de Janeiro às 5h15 — com a estrada vazia, o percurso é bem mais rápido. Esperei o embarque e me acomodei na poltrona da janela.
Então Liebert sentou-se ao meu lado. Claro que eu ainda não sabia que era Liebert, integrante da banda The Fevers. Mas The Fevers eu conhecia.
Desejei bom dia ao colega de poltrona, como sempre faço. Engatamos uma prosa entre uma mineira bem do Triângulo e um maranhense bem carioca.
O voo de uma hora e dez minutos até Belo Horizonte pareceu durar apenas cinco. Conversamos sobre tudo, inclusive música. O baixista de uma das bandas mais conhecidas da Jovem Guarda, inspirada nos Beatles, revelou-se também um homem afetuoso, pai orgulhoso de cinco filhos, dos netos e da própria história.
O músico é filho de um oficial da Marinha que serviu durante a guerra e viveu intensamente até os 105 anos. A mãe, musicista e incentivadora da música na vida do filho, tocava piano e violão e costurava belíssimos vestidos para as netas.
Liebert poderia ter sido engenheiro, mas a paixão pela música foi maior. Ele é um dos fundadores da banda que atravessa décadas, tocou com grandes nomes da música brasileira e se apresentou em emissoras de televisão, por todo o Brasil e também fora dele.
A pandemia interrompeu a agenda de shows, mas o grupo voltou à estrada. Naquele dia, voltava também aos ares, a caminho de uma apresentação em Cametá, no Pará.
Aos 76 anos, Liebert conservava um brilho inspirador nos olhos. Compreendia as dificuldades de reinventar uma banda surgida na década de 1960 para o mercado dos dias atuais. Mesmo assim, The Fevers continuava reunindo multidões e embalando gerações ao som de Por Causa de Você.
— Tem que tocar os sucessos do passado — garantiu.
Despedimo-nos com um abraço, como se fôssemos velhos amigos.
Mamãe, ele mandou um abraço para você.
