O sorriso veio como um pedido de licença para entrar e vender o produto. Não haveríamos de impedi-lo.

A conversa foi breve, mas o conteúdo, farto. Desempregado, ele acabara de se desentender com um cidadão na feira.

— Agora o Triângulo da Sorte está empregando vagabundos?

— Como assim? O senhor está me chamando de vagabundo? Estou aqui vendendo porque não tenho emprego. Tenho lutado para conseguir um. Tenho fé de que vou conseguir. Nosso Senhor Jesus Cristo vai me ajudar. Vou ter um emprego com carteira assinada, mas vagabundo eu não sou. A Bíblia diz que os humilhados serão exaltados.

Enquanto Jacqueline escolhia o bilhete, soubemos dos amigos que ele fazia pelas ruas. Morava no Cartafina, mas jogava sinuca no Uberaba I.

— Valendo, não. Só de brincadeira.

Foi lá que soube que o filho do dono de uma farmácia do bairro de Lourdes havia morrido de gripe suína. O rapaz sonhava em comprar uma Montana — “sabe qual? Parece uma Strada” —, mas morreu. Luiz Fernando contou que tinha jogado sinuca com o pai dele, que também estava gripado.

— Eu já tomei todas as vacinas, inclusive a H1N1. Senão, eu poderia ser o próximo.

Por sorte, Jacqueline continuava envolvida com os bilhetes. Tive tempo de perguntar se ele tinha filhos.

— Não. Meu sonho é construir uma família, mas, antes, preciso construir a minha vida. A gente não consegue formar uma família sem antes formar a vida.

Foi necessário beber um pouco de água para hidratar as cordas vocais. Afinal, o dia estava apenas começando.

Na despedida, pediu que ficássemos com Nosso Senhor Jesus Cristo e que Jacqueline ganhasse o prêmio.

— Do primeiro ao terceiro prêmio, ganho uma bonificação de quinhentos reais. No quarto, mil reais.

Pensei: que bom seria se Jacqueline ganhasse. Daria para aliviar um pouco a barra de Luiz Fernando, que não é vagabundo e recebe um real por cartela vendida.

Sei que lá fora existem muitos “Luizes”. Este entrou no escritório para ensinar sobre fé, humildade e esperança.