Ela habitava múltiplas existências — algumas reais, outras imaginárias.
Deslizava entre papéis com a mesma naturalidade de quem não se apega a um só nome.
Às vezes, palavra. Noutras, silêncio.
Era fluida. Contraditória como tudo o que é vivo.
Tinha mar nos olhos — e também tempestades. Dias serenos e noites em que o barco virava com o peso da alma.
Carregava consigo uma garganta entupida de nãos e um coração onde as feridas falavam entre si.
Criava os próprios monstros. E os alimentava com o mais puro afeto.
Tinha asas, mas andava pela vida com os pés algemados.
Gostava de coisas simples: vinho encorpado, um doce infantil, um sapato surrado.
Ria como uma menina que ganhou um brinquedo. Chorava por não se reconhecer em ninguém.
A solidão era o lar. Mas ela insistia em ser abrigo.
Suas cicatrizes contavam histórias perturbadoras. E doíam — como só dói o que ainda importa.
Tinha medo do escuro. Temia a vida; mais ainda, a morte. Sabia bem o que a morte pode arrancar de alguém.
Era fortaleza. Mas desmoronava por dentro.
Amava sem medida. E esperava o amor onde ele nunca chegou.
E foi ele — o amor — seu algoz e sua salvação. Seu veneno e sua centelha.
Era música e silêncio. Sombra e escuridão.
Vibrava em todas as frequências, mas sua voz nunca foi compreendida e seus gritos jamais foram ouvidos.
Hoje, fez de si o único lugar possível.
Como quem já não espera mais nada da vida.
Já não queria ser várias. Queria ser única.
Perdoou aqueles que nunca lhe pedirão perdão.
Acolheu-se. Protegeu-se.
Adormeceu exausta.
E, naquela noite, ao fechar os olhos, não era fuga nem cansaço. Era o gesto sereno de quem se despede do que já não cabe.
Permitiu-se partir de si mesma para, enfim, habitar-se por completo.
