O cansaço tem o cheiro
das chuvas antigas
e o som das coisas
que não voltam.

Trago culpas que não são minhas,
presas nas dobras da pele,
grudadas na memória
como cicatrizes sem história.

Protegi demais.

Fui abrigo,
escudo e refúgio —
mas me esqueci
ao relento.

Amar foi o meu erro mais bonito
e também o que mais doeu.

As palavras se recolheram
dentro do peito,
como pássaros que esqueceram
o caminho de casa.

E eu,
feita de amor e ausência,
aprendi que até o sol
tem dias de exílio.

Há em mim uma força
que finge ser esperança,
mas é apenas resistência:

a arte silenciosa de continuar
mesmo depois de já ter ido embora de mim.