Há pedaços do que sou
espalhados pelo chão:
estilhaços de corpo e alma,
um corte seco no céu da boca,
um queloide no pé
e vários remendos no coração.
Viver é um jogo de reconstruir
o que desejos e convicções destruíram.
Morrer é perder a vontade de reconstruir.
Há um canto triste na minha manhã.
Eu temia que durasse além do outono.
O medo está entalado na garganta,
enquanto a coragem sangra no estômago.
Sonhar é um jogo de empilhar desejos
na estrada do acaso
sem se perder.
Morrer é perder a vontade
de continuar sonhando.
Pobre ser que não se desafia,
que se acomoda em pilhas de estratégias
para ser feliz.
Descobri, há algum tempo,
que ser feliz nada mais é
do que o segundo em que dura o sorriso.
Todo o resto é expectativa.
Há pedaços do que sou
espelhados pelo chão:
estilhaços de corpo e alma,
remendados no coração.
