Passei a tarde correndo, resolvendo aquelas pequenas coisas que sempre deixamos para depois, mas que tomam um tempo danado. Passa aqui, passa lá, passa longe, passa perto. Peguei material da gráfica para entregar aos clientes, fui ao supermercado e seguiria para casa.

Dificilmente sinto vontade de beber água, mas, durante o trajeto, veio uma sede súbita — daquelas que fazem a gente aceitar até água quente da torneira.

Foi no semáforo da rotatória da avenida Leopoldino de Oliveira, próximo ao Uberabão, que vi o moço que vende trufas e água por dois reais. Aí já era. Não havia psicológico capaz de driblar a sede: eu só conseguia imaginar a água descendo pela garganta. Chamei o vendedor e pedi uma garrafa.

Sob o calor de 29 °C das quatro da tarde, com a umidade lá embaixo e um sol para cada um, ele sorriu, entregou a água e esperou o pagamento. Foi então que percebi que havia perdido o troco do supermercado: dezessete reais que, provavelmente, caíram quando mostrei o cupom fiscal na saída.

Pedi desculpas e disse que não ficaria com a água.

— Pode levar. Depois você me traz. Fico aqui até as sete — respondeu.

O sinal ainda estava fechado. Expliquei que talvez não voltasse àquele lugar no mesmo dia. Ele insistiu:

— Pode beber a água. Depois você me dá o dinheiro.

Encontrei oitenta centavos na bolsinha de moedas, entreguei a ele e disse que tentaria voltar rapidamente. Abri a garrafa e matei a sede.

São pequenos gestos que nos transformam em pessoas melhores. É esse tipo de atitude que me faz continuar acreditando no ser humano. A dificuldade não precisa nos tornar egoístas nem incapazes de olhar para o outro com solidariedade.

Voltei alguns minutos depois com o restante do dinheiro. Ele me agradeceu como se eu lhe tivesse feito um enorme favor. O que não sabia era que quem saiu daquela venda com a alma mais rica de esperança fui eu.