Prestes a terminar o seu quarto ano na presidência do Uberaba Sport Club, Luiz Humberto Borges fala, nesta entrevista, sobre o futuro do time colorado, que viveu recentemente a expectativa de chegar à Série C do Campeonato Brasileiro. Com 63 anos, Luiz Humberto enfrenta o desafio de colocar o USC de volta em uma competição com expressividade nacional, e dar início às obras do Centro de Treinamentos. Mesmo reconhecendo que pegou o clube em 2005 sem time e na segunda divisão do Campeonato Mineiro, não acredita que cumprirá um segundo mandato. Para ele é muito importante renovar a direção dos clubes e, agora, é preciso viabilizar uma pessoa para a sua sucessão.
Jornal da Manhã - Qual foi o critério utilizado para dispensar os jogadores Danone, Alemão e Chico Marcelo, após a eliminação na Série D? Luiz Humberto - Na avaliação da diretoria de futebol, o Danone não conseguirá ser o atleta que o Uberaba Sport precisa. Nós temos que buscar novos atletas e tentar formar o nosso plantel. Não faz sentido, com pequeno ou grande salário, você manter alguém que não tem um perfil de aproveitamento. No caso do Chico Marcelo, a condição foi mesmo o custo. Com salário mais elevado e por ele não ter tido o aproveitamento que esperávamos, liberamos o jogador. O Alemão é um atleta que tem as suas condições de aproveitamento, mas houve o interesse do Mamoré. Como nós precisávamos reduzir o elenco, então ele foi emprestado, mas retorna para o Campeonato Mineiro. O Leandro Bocão tem algumas negociações que podem resultar na sua permanência ou numa possível saída. Até o fim desta tarde, teremos definido a sua situação no time. Não podemos reduzir demais o plantel, até porque queremos ser campeões da Taça Minas Gerais. Como acabamos de ter a saída do técnico, e não dá para desmanchar o time, temos que dar a oportunidade do novo técnico conhecer os jogadores.
JM - Quantos jogadores ainda deverão sair e chegar no Uberaba Sport este ano? LH - Para o Mineiro, só temos o entendimento com o Araguaia; já no decorrer da Taça Minas Gerais, veremos atletas de outras equipes, mas não há definição em números. Não deverá ser um plantel grande, mas terá que ter qualidade. Quanto às possíveis rescisões, ainda deve acontecer uma redução para a Taça Minas Gerais, que já começou, mas é preciso esperar o técnico para avaliar quem sai e quem fica.
JM - As negociações com o Araguaia não devem se limitar a Marcos Birigui. Há rumores de que há jogadores do time do Mato Grosso, que interessam ao Uberaba Sport Club. Quem são? LH - É claro que a vinda de Birigui facilitará as negociações dos atletas e, inclusive, já tem um trabalho feito com o treinador. Dinei, Valtinho e Thiago Fofão são os nomes que cogitamos para reforçar o time no Mineiro.
JM - E o bolso do Uberaba Sport, como é que fica para estas contratações? LH - Nós continuamos sem dinheiro, mas temos que definir. Como eu disse, são acertos para o Mineiro e não para a Taça Minas Gerais. Eles devem se apresentar no final de novembro ou início de dezembro, quando começaremos a preparação para a competição.
JM - Como é que você pretende tornar realidade a conquista da Taça Minas Gerais? LH - O saneamento do plantel foi importante. Todos sabiam que tínhamos um grupo para dois torneios e que não daria para mantê-lo como estava. O resultado que buscávamos no Brasileiro não veio. Precisamos buscar uma atuação mais firme. Há necessidade de mudança e de que o técnico motive a equipe para encarar esta competição e ser campeão.
JM - Como você avalia a passagem do jovem e inexperiente técnico Érick Moura? LH - Em uma fase de aprendizado sempre acontecem erros. O Érick acertou muito, teve boa dose de sorte - em determinados momentos - e cometeu algumas falhas. No balanço geral, tivemos uma grata surpresa, já que ele conseguiu deixar a equipe entre as oito melhores, numa competição iniciada por quarenta times. Ele mostrou que tem capacidade técnica, só
precisa ter mais vivência. O tempo é que vai dar experiência a ele, para que realmente se torne um grande técnico. Ele tem capacidade para isso.
JM - O Marcelo Araxá deixará o Uberaba Sport? LH - O Marcelo é muito consciente, ele sabe das dificuldades financeiras do Uberaba Sport. Até mesmo depois do início do Brasileiro, ele se dispôs a deixar a equipe, para diminuir a nossa folha de pagamento. Foi convencido do contrário, porque precisávamos dele durante o campeonato. Neste momento, ele se manifestou e vai ser um auxiliar a distância, até o final da Taça Minas Gerais. Ele deve atuar em Araxá, para montar o elenco de lá, mas certamente voltará no Campeonato Mineiro.
JM - O Ernani Nogueira e o Marcelo Araxá, diretor e gerente de futebol do USC, interferem na escalação e no esquema tático da equipe? LH - A decisão final, lógico, é do técnico, mas um diretor e um gerente de futebol, com vivência, e um técnico com pouca experiência, têm que trocar muita informação e manter um bom diálogo. As manifestações são sempre no sentido de buscar melhorias. Cabe ao técnico assimilar se é correto, e aplicar ou não. A decisão é sempre do técnico.
JM - Com um técnico mais experiente, estas manifestações não podem gerar constrangimentos? LH - Não digo que interfiram no trabalho do técnico, ou que decidam o que ele deva fazer. Na verdade, oferecem sugestões, o que é o papel do gerente e do diretor de futebol. Farão isso também com um técnico mais experiente. Se o técnico se dispuser a fazer mudanças contrárias à própria opinião, porque alguém recomendou, ele estará abrindo mão do seu papel, omitindo-se e prejudicando-se. O Érick não foi nesta linha, apesar de entendimentos e colocações feitas, às vezes, não seguia o que era sugerido, e colocava em prática a sua visão do jogo. E eu acredito que o gerente e o diretor não devem omitir as suas opiniões, que não são determinações e decisões.
JM - Qual foi o prejuízo do Uberaba Sport, ficando fora da Série C? LH - Eu calculo que pelo menos uns 500 mil reais, a gente tenha deixado de arrecadar, porque nós perdemos a cota da Globo, que é repassada para os participantes das Séries B e C, em torno de 150 mil reais. Perdemos em patrocínio, porque é muito mais fácil conseguir apoio para a Série C. Perdemos também em renda, já que teríamos jogos que motivariam os torcedores a irem ao estádio em maior número, o que não teremos nesta situação.
JM - O BMG continua a parceria com o USC? LH - O contrato é de 12 meses, então devemos ter o BMG até o campeonato que estivermos disputando no segundo semestre de 2010.
JM - É possível citar os valores desta ajuda? LH - Não. O banco prefere não divulgar. Mas não é nada significativo, nada que banque o clube. Não cobre nem um terço da folha, mas é uma ajuda que o BMG está dando ao Uberaba, e ele é, na realidade, o nosso primeiro patrocinador, porque não temos isso. Temos pequenas ajudas, como a Vita Charm, que é uma negociação através do Roberto Laranjeira. A empresa dele tem que comprar produtos da Vita Charm e deduzir o valor do patrocínio, de acordo com os valores dos produtos. É uma ajuda amarrada a uma negociação comercial.
JM - Parece que há o interesse de que o empresário José Castro Lacerda, o Cacai, ajude o Uberaba Sport. Isso era para a Série C ou para 2010? LH - A conversa com o Cacai é para ver a possibilidade em relação ao Campeonato Mineiro. Continuam os entendimentos, mas ainda não há nada definido.
JM – Sobre a multa pelo ato indisciplinar do torcedor no Uberabão, na partida com o Alecrim, como vocês receberam esta notícia? LH - O Uberaba Sport foi enquadrado, mas infelizmente não tivemos esta informação no momento em que aconteceu. Teria que ter sido feito um boletim de ocorrência, com a identificação do infrator, para que ele pudesse ser responsabilizado e não o clube. O USC será julgado, poderá perder mando de campo e também está sujeito a receber uma multa que vai de 10 a 200 mil reais. Quer dizer, 10 mil já são uma dificuldade, 200 são inviáveis, o que poderá tirar o time de campeonatos, inclusive do Mineiro.
JM - E a situação do Boulanger Pucci? LH - Continua na justiça. Recorremos a Belo Horizonte e aguardamos a definição. A Prefeitura faz a desapropriação, mas cabe à justiça definir a quem deve ser direcionado o pagamento, se para os arrematantes ou para o Uberaba Sport.
JM - A área administrativa será construída no Boulanger Pucci? LH - Os entendimentos com a prefeitura são de que o Uberaba, até ter o seu centro de treinamentos, utilizará a área do Boulanger Pucci. Há, porém, o projeto do LS Guarato de ampliar a sua área de estacionamento, e esta expansão pegará a nossa administração, vestiários e arquibancada. Teremos então a necessidade de viabilizar outro espaço interno, para substituirmos o que for demolido.
JM - De acordo com o empresário Sérgio Guarato, os pagamentos já foram realizados. LH - Na verdade ele fez um depósito do leilão, um depósito judicial. Se a justiça decidir que o leilão foi válido, a prefeitura na desapropriação vai pagar para os arrematantes, segundo um acordo comercial entre eles. Se a justiça decidir que a área é do Uberaba e o leilão for cancelado, então o entendimento será entre o clube e a prefeitura. O valor é 3,2 milhões de reais, avaliado pela PMU, que seria pago em parcelas.
JM - E com isso renegociar as dívidas? LH - Certamente. Vamos parcelar as nossas dívidas, renegociar os FGTS pendentes e dar início ao Centro de Treinamentos. Com a carta de negativa de débitos poderemos fazer projetos em nome do Uberaba Sport Club. Hoje, só é possível fazer projetos em nome do IACEL (Instituto de Apoio à Cultura, Esporte e Lazer), que é o Instituto que apoia o clube.
JM - Por que a Prefeitura não atua de forma mais significativa junto ao USC? LH - Na questão do repasse de recursos é por não termos as certidões negativas. E por outro lado, pela dificuldade financeira pela qual passa o município. Temos atuações, como o BMG, que foi consequência do conhecimento com a prefeitura, por ser o banco que faz empréstimos aos servidores, portanto, não é somente uma negociação comercial.
JM - Como você pretende deixar o USC, em dezembro de 2010, quando termina o seu mandato? LH - Meu projeto é deixar, pelo menos, a construção do Centro de Treinamentos em andamento, com o parcelamento das dívidas e o time na Série C, do Brasileiro. Os planos seriam a Série B, mas como não conseguimos o acesso, agora é lutar para deixá-lo na Série C. No Mineiro, é estar entre os quatro, disputar o quadrangular final, que era a meta deste ano, e que agora ficou para 2010.
JM - O clube já tem a área para a construção do Centro de Treinamentos? LH - Nós temos a área reservada no Residencial 2000, em torno de 50 mil metros. Não é a área ideal, mas será possível construir 2 ou 3 campos e as outras dependências, como o alojamento, piscina e academia.
JM - Qual foi o maior erro do USC na Série D? LH - Uma junção de fatores. Faltaram competência para marcar gols e consistência na defesa; houve também falhas de arbitragem. A princípio, o jogo em Uberaba nos tirou a classificação para a Série C. Agora teremos dois jogos para organizar o time, contra o Ituiutaba e o Uberlândia, para seguir em frente na Taça Minas e conseguir comemorar este título.
